Quarta-feira, 01 de abril de 2026   •   Diploma Mulher-Cidadã Bertha Lutz será entregue na terça   •   Primeira fase da megaobra de alargamento da Praia Central entra na reta final com mais de 97% de conclusão; novo trecho avança no sentido norte   •   Operação da PF combate lavagem de dinheiro e evasão de divisas

Editorial: BRINCANDO COM FOGO


Na embriaguez do poder, o brinde parece vitória — mas é na lucidez da história que se evita a tragédia.

Por Redação Catarinorte
Segunda-feira, 30 de março de 2026 07:44


Compartilhar no WhatsAppCompartilhar no FacebookCompartilhar no X/TwitterCompartilhar no LinkedInCompartilhar no PinterestCompartilhar no TelegramCompartilhar no Reddit



O mundo volta a assistir, inquieto, a um velho espetáculo: o poder que se confunde com licença para provocar. Donald Trump tem elevado o tom como quem testa limites — não apenas diplomáticos, mas históricos. Entre bravatas e sugestões que flertam com o delírio, fala-se em anexações improváveis, redesenhos geopolíticos e soluções simplistas para conflitos complexos. O problema não é apenas o discurso — é o eco que ele encontra em tempos de instabilidade. O recente endurecimento contra o Irã, com ameaças diretas a infraestruturas energéticas vitais, elevou o mundo a um novo patamar de tensão. A retórica não ficou no campo das palavras: ataques, contra-ataques e uma escalada militar já impactam o fluxo global de energia e a estabilidade internacional. Mas a história — essa velha professora ignorada — já contou esse enredo antes. No século passado, os Estados Unidos mergulharam em conflitos como a Guerra da Coreia e a Guerra do Vietnã. Mais recentemente, repetiram o roteiro no Afeganistão e no Iraque. Em todos esses casos, a superioridade tecnológica e militar não foi suficiente para dobrar aquilo que não se mede em arsenais: a resistência humana, a identidade cultural e a fé — elementos que atravessam gerações. O erro recorrente das grandes potências é acreditar que guerras são equações técnicas. Não são. São fenômenos humanos. Bombas não destroem convicções. Mísseis não eliminam memórias. E nenhuma operação cirúrgica consegue extirpar séculos de identidade de um povo. O que se vê agora é uma perigosa combinação: poder militar extremo, comunicação impulsiva e um cenário global inflamável. O estreito de Ormuz, vital para o abastecimento mundial, já se tornou palco de disputa estratégica, com impactos diretos no preço do petróleo e na economia global. Há, nesse contexto, uma ironia amarga. Enquanto se fala em grandeza e domínio, o mundo se aproxima de crises que ninguém controla plenamente. A embriaguez do poder — essa sim — é mais perigosa do que qualquer bebida popular. O tal “Estado 51” parece menos um projeto geopolítico e mais um estado de espírito. Um estado etílico. Uma embriaguez de poder. No Brasil, conhecemos bem a força simbólica do número. A Cachaça 51, popular e acessível, é quase um ícone nacional — também conhecida por seus efeitos colaterais quando consumida sem medida. Não por acaso, tornou-se sinônimo de excesso, de descontrole, de decisões que no dia seguinte cobram seu preço. O mundo não precisa de novos territórios imaginários. Precisa de sobriedade. Porque quando líderes confundem geopolítica com delírio, o risco é que o planeta inteiro acabe participando de uma ressaca que não pediu para ter. E, ao contrário da garrafa, não há como simplesmente fechar a tampa depois. Na embriaguez do poder, o brinde parece vitória — mas é na lucidez da história que se evita a tragédia.


© Copyright 2025 Sistema Catarinorte de Comunicação